Teatro Ipanema recebe o mais recente espetáculo da Cia. Alfândega 88, “Fim de Partida”, de Samuel Beckett

Adriana Seiffert e Silvano Monteiro
Foto: Lu Pitta
Sessão dias 02 e 03 de abril (quarta e quinta)  às 21h. Este é o primeiro espetáculo da Companhia após sua ocupação no Teatro Serrador (2011-2013), pela qual a Alfândega 88 ganhou o ‘Prêmio Shell’, na Categoria Especial.

Colocando em prática a multidisciplinaridade que caracteriza a companhia, com revezamento de funções, “Fim de Partida” é dirigido por Danielle Martins de Farias, que é uma das fundadoras da companhia junto com Moacir Chaves e que trabalhou como diretora assistente em todas as montagens da Alfândega 88. A escolha do texto de Beckett dá continuidade à pesquisa que teve início com a leitura encenada pela diretora de Fim de Partida, no Projeto de Manutenção da Cia. no Teatro Serrador em junho deste ano.

SOBRE O ESPETÁCULO

Escrita na atmosfera do pós-guerra, o espetáculo é uma obra bastante conhecida e representativa do universo beckettiano. Composta de um único ato, retrata os dois protagonistas, Hamm e Clov, reclusos num abrigo, sofrendo com a escassez de alimentos e remédios. O enredo transcorre em torno de uma possível partida de Clov, enquanto Hamm, seu decrépito senhor, paralítico e cego, administra o fim das provisões: alimentos, remédios, sonhos, ideais. Os pais de Hamm, Nagg e Nell, acentuam as relações de dependência e solidão, num paralelismo constituído de forma grotesca, e, ao mesmo tempo, poética. Vidas humanas recolhidas num ambiente fechado, claustrofóbico; no espaço externo, um mundo em destruição. Nesta atmosfera trágica, diante de uma situação desordenada e caótica, os diálogos são preenchidos do humor cáustico desses representantes da humanidade. Fim de partida é um ensaio sobre o enigma de nossa condição, segundo Beckett, desumana.

Considerado um dos maiores da dramaturgia mundial, Beckett constrói com precisão a arquitetura do seu texto: Fim de Partida trabalha rigorosamente com o ritmo da fala e o tempo da pausa, criando uma partitura quase musical. E apesar do apocalíptico cenário de suas personagens, onde tem lugar o vazio existencial, a ausência de sentidos e o nada, a peça traz um humor ferino, sintetizado na fala de Nell: “Nada é mais engraçado que a infelicidade”. Por outro lado, o cômico também surge quando Beckett expõe, de forma metalinguística, o plano dos atores em cena, evidenciado em falas como a de Ham: “Estou repassando meu monólogo final”.

A montagem da Alfândega 88 traz quatro atores da Cia. que integram também seus demais espetáculos: Adriana Seiffert, Leonardo Hinckell, Rafael Mannheimer e Silvano Monteiro. A iluminação criada por Aurélio de Simoni, premiado iluminador e integrante da Companhia, assim como o texto de Beckett, prima pelo essencial: buscando a síntese, acentua o clima de crueza e escassez proposto pelo autor ao mesmo tempo em que destaca o jogo dos atores. Responsável pelos figurinos, Raquel Theo trabalha com as rigorosas descrições da indumentária presentes no texto para desenhar as personagens. E Sergio Marimba transporta para a cena a textura do pós-guerra com um cenário inspirado nos bunkers que serviam de abrigos, e que, ao mesmo tempo, aponta para a metalinguagem do texto de Beckett, materializando o aspecto lúdico e ressaltando sua teatralidade não realista.

FICHA TÉCNICA

TEXTO: Samuel Beckett

TRADUÇÃO: Fabio de Souza Andrade

DIREÇÃO: Danielle Martins de Farias

ELENCO: Adriana Seiffert (Nell), Leonardo Hinckell (Hamm), Rafael Mannheimer (Clov) e Silvano Monteiro (Nagg).

ILUMINAÇÃO: Aurélio de Simoni

CENÁRIO: Sergio Marimba

FIGURINOS: Raquel Theo

DIREÇÃO ARTÍSTICA ALFÂNDEGA 88: Moacir Chaves

SINOPSE: Escrita na atmosfera do pós-guerra, a peça retrata, com humor cáustico, quatro personagens: Hamm, seu criado e seus pais, todos reclusos num abrigo, sofrendo com a escassez de alimentos e remédios.

SERVIÇO

Temporada prorrogada: Sessões 2 e 3 abril (quarta e quinta) às 21h

Local: Teatro Ipanema (Rua Prudente de Morais, 824, Ipanema, Rio de Janeiro)

Preço: R$30,00 (inteira), R$15,00 (meia: estudantes, idosos, professores de rede pública) e R$ 5,00(estudantes de teatro e classe artística)

Classificação etária: 14 anos

Duração do espetáculo: 90 minutos

Gênero: Drama

A COMPANHIA ALFÂNDEGA 88

A Alfândega 88 fundamenta sua pesquisa cênica na busca de reflexão sobre nosso presente através do questionamento de nosso passado, estudando teoricamente nossas raízes culturais e históricas, e, ao mesmo tempo dividindo, questões através do experimento de materiais não convencionais de dramaturgia. A Companhia é formada, além do diretor Moacir Chaves, por Aurélio de Simoni, iluminador com 30 anos de carreira, mais de 800 trabalhos realizados e diversos prêmios, e por um elenco de onze atores que, com uma idade média de 30 anos, têm experiência no teatro e vivência de grupo, e que hoje optam de forma madura pelo trabalho em uma companhia, com a convicção de que a criação de vínculos é seu caminho para o desenvolvimento da qualidade artística e dignidade profissional. Assim como o diretor, Moacir Chaves, que após mais de 25 anos de profissão e 40 espetáculos encenados, retorna ao seu ideal, já que desde sua formação na Escola de Teatro Martins Pena, teve estreita relação com trabalho de grupo, tendo iniciado sua carreira como diretor assistente do Grupo Tapa e fundado, posteriormente, o grupo Cite-Teatro, com a atriz Denise Fraga, em 1987. Em comum - além da afinidade artística, lapidada ao longo dos anos em parcerias precedentes à existência da companhia – o desejo de desenvolvimento de um trabalho a longo prazo, com a construção das bases em que cada novo espetáculo seja uma continuidade da pesquisa do grupo, possibilitando o aprofundamento dos caminhos estéticos da companhia e uma maior evolução artística de seus indivíduos. O Controlador de Tráfego Aéreo, terceiro espetáculo da Alfândega 88, vem sendo muito bem recebido pela crítica e público e já foi convidado para se apresentar no festival Janeiro de Grandes Espetáculos (PE) e para o Palco Giratório em 2014. A peça, que tem dramaturgia construída a partir da trajetória de vida de Silvano Monteiro, ator da Cia., trata de limites e fronteiras e da corrida que cada um de nós empreende em busca da felicidade. O primeiro espetáculo da companhia, Labirinto, do consagrado autor gaúcho José Joaquim de Campos Leão - Qorpo-Santo, com o apoio do FATE - SMC/RJ, estreou em 2011 no Espaço SESC, Copacabana, teve bem sucedidas temporadas em diversos teatros do Rio de Janeiro, além de ter participado dos principais festivais de teatro do país, todos com excelentes críticas e retorno de público, e acaba de ser convidado para integrar o Palco Giratório em 2014. O nome da companhia é inspirado no episódio histórico que deu origem ao espetáculo A Negra Felicidade, em que a escrava de nome Felicidade moveu uma ação em juízo pleiteando sua liberdade. Sua mãe, a preta livre Maria Anna de Souza do Bonfim, solicitou a um terceiro que, por compra ou por qualquer outra transação, conseguisse a vinda de sua filha para o Rio de Janeiro, para que então pagasse por sua liberdade. Para liquidar a dívida, ambas tiveram que permanecer durante anos em trabalho na Rua da Alfândega nº 88. O espetáculo A Negra Felicidade (estreado em 2012 com patrocínio da Eletrobrás), o segundo da companhia, foi indicado ao Prêmio Shell de Melhor Direção e aos prêmios Questão de Crítica de Melhor Direção e de Melhor Espetáculo e acaba de ser contemplado com o Fomento da SMC do Rio de Janeiro para circular nas lonas culturais da região. Desta forma, a Alfândega 88 vem cumprindo seu intuito: manter seus espetáculos em repertório, acreditando na continuidade do fazer teatral, na contramão de uma visão mercadológica que descarta os espetáculos tão logo se cumprem as apresentações mínimas exigidas pelos patrocinadores.

SOBRE A DIRETORA

Danielle Martins de Farias trabalha profissionalmente com teatro desde o ano 2000, como atriz, diretora, arte-educadora e produtora. Pós-graduada em preparação de atores pela faculdade Angel Vianna (RJ, 2012) e graduada em Direito pela UERJ (1999). Formou-se no curso profissionalizante de atores da CAL - RJ (2000) e no Studio Fátima Toledo - SP (2005). Cursou o CPT - Centro de Pesquisa Teatral -SP (2002) e, por um ano, a escola profissionalizante em dança Angel Viana - RJ (2001). Foi bolsista em direção no CAT (Funarte/ Cooperativa Paulista de Teatro, SP, 2009), sob coordenação de João das Neves. Estudou direção teatral com Luiz Fernando Marques (Grupo XIX de Teatro, 2008, SP) e com José Renato Pécora (2003, SP). É integrante fundadora da companhia Alfândega 88 (RJ), dirigida por Moacir Chaves, tendo atuado como atriz e assistente de direção nos espetáculos: Labirinto, com textos de Qorpo Santo; A negra Felicidade, construído a partir de documentos históricos, que foi indicado ao Prêmio Questão de Crítica de Melhor Direção e de Melhor Espetáculo e ao Prêmio Shell de Melhor Direção (2012); O controlador de tráfego aéreo, direção e dramaturgia de Moacir Chaves (2013). Ainda com a mesma companhia, atua no projeto Alfândega 88 - Programa Anual de Atividades- residência no Teatro Serrador, de manutenção da companhia, contemplado duas vezes pelo FATE (2012-2013), vencedor do Prêmio Shell Categoria Especial. Também atuou como assistente de direção nos seguintes espetáculos dirigidos por Moacir Chaves: Merci, de Daniel Pennac, monólogo com Ana Barroso (2010) e A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho, monólogo com Chico Diaz (CCBB, 2011), indicado ao prêmio APCA de melhor ator. Em São Paulo, atuou como assistente de direção de José Renato Pécora em Aroma do Tempo, de Ernè Vaz (indicado aos Prêmios Coca-Cola de melhor espetáculo, texto e música, SP) e de João das Neves em Conversas e Memórias. Dirigiu os espetáculos Play It Again, Sam, de Wood Allen, premiado no Drama Festival da Cultura Inglesa, e The Emperor’s New Clothes, premiado no Teen Play Festival da Cultura Inglesa. Também dirigiu diversas leituras dramáticas, dentre elas, Vigília, de Cássio Pires, no ciclo de leituras do projeto “Escrita Aberta”, da Cia dos Dramaturgos, contemplado com o Programa de Fomento ao Teatro (2006).

Como atriz, atuou com Os Satyros por três anos (2003/2004/2005), em A Filosofia na Alcova; Kaspar ou a Triste História do Rei do UniversoArrancado de sua Casca de Noz; Antígona (indicado ao Prêmio Shell de melhor direção) e De Profundis (indicado ao Prêmio Shell de melhor iluminação) - dirigidos por Rodolfo Vázquez; integrou a Cia Arte Tangível, com Itãs Odu Medéia (contemplado com o Programa de Fomento e com o PAC - temporada no Viga Espaço Cênico, 2007). Participou do elenco fixo do espetáculo Nunca Se Sábado – direção de Isser Korik (Teatro Folha, 2006). Atuou também em Ainda sem título, de Ana Roxo - direção Fábio Torres, Cia dos Dramaturgos (Centro Cultural São Paulo, 2006); Rolex, de Mário Bortolotto (Cia. Cemitério de Automóveis, Teatro Ruth Escobar, 2008). No Rio de Janeiro, atuou como atriz também em A Rússia de Tchekov - direção de Bárbara Heliodora (Rede Sesc, 2000) e Aqui jaz Marilyn Monroe, direção de Thierry Tremouroux (Sesc Baden Powell e Teatro dos Quatro, 2001).

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